Fuga

Um conto sobre pontos de vista

Geórgia, a sabiá

Cleuza Maria, tu não vai acreditar! Hoje mais cedo eu estava procurando comida, como sempre faço depois das manhãs. Eu não sei o que foi que arrumei, mas quando me dei conta estava num lugar muito bizarro. Não sabia exatamente como tinha chegado ali, mas era um lugar cheio de coisa esquisita no chão.

Eu tentava voar, mas não conseguia. Toda vez que tentava, dava uma bicada ou cabeçada em alguma coisa que eu simplesmente não conseguia enxergar. E dói viu, tu não faz ideia! E eu não estava entendendo, porque não tinha nada na minha frente, Cleuza. N-A-D-A! Era como se Deus Piu Piu estivesse me impedindo.

Quando vi, como se não bastasse, chegou uma mamangava para atrapalhar. Agora éramos duas perdidas num lugar que me aterrorizava só de olhar. E eu tinha que aguentar o barulho insuportável daquele insetinho nojento do meu lado. Argh! Que bicho horrível. E o pior é que nem dá para comer, né? Eu é que não ia tentar comer aquilo. Capaz de me matar.

Enfim, Cleuzinha. O que eu vou te contar agora pode parecer mentira. Eu sei que você é cética com essas coisas, mas presta atenção nisso, porque eu não sei dar outra explicação: eu ouvi o chamado de Deus Piu Piu. Te juro, Cleuza! Por tudo que é mais piado. Era aquele canto flauteado que só a gente faz, sabe? Ai, foi lindo. Deus tem mesmo o dom dos cânticos. Nem acredito que ouvi o canto Dele. Era um canto muito alto, nunca tinha ouvido naquela altura. De verdade, uma potência de pio divina.

Enquanto isso, a danada da mamangava não parava de zunir do meu lado. Até tentei dar uma bicada, mas tomei logo umas 10 “asadas” na cara e desisti. Ô asinha forte!

O problema é que eu não sabia de onde vinha o canto, por mais que estivesse na maior altura. É como se viesse do céu. E aí pensei que, talvez, Piu Piu estivesse evitando que eu voasse por aquele lugar porque eu enfrentaria perigos por ali. Ele estava me protegendo! Olhei para trás e vi outra saída. Fui voando para lá e bati o cabeção de novo — sabe Piu Piu em quê. E seu canto flauteado não parava, continuava me chamando. Eu fiquei toda agitada, mas não sabia o que fazer. Ia de um lado para o outro até cansar. Era como se as duas saídas que eu estava vendo não existissem. E eu estava vendo, Cleuza! Eram os dois lugares de onde vinha luz.

Eu já estava cansada. E não era a única, porque a mamangava já tinha caído mortinha do meu lado. A falecida bateu tanta asa e cabeça no vidro que morreu de cansaço. Pensei que talvez eu devesse parar de bater tanta asa também. O canto divino piou por um tempão, e depois cessou. Passei mais um bom tempo olhando para fora, pensando no que fazer. E o pior é que eu ainda não tinha matado a fome. Até achei um mosquitinho, mas não encheu nem um buraco do bico.

Nem sei piar quanto tempo fiquei naquele lugar. Eu já estava amedrontada, Cleuzinha. Depois uns humanos ainda tentaram me capturar com longos pedaços de pau, mas essa parte eu não vou me dar ao trabalho de contar. Você não acredita nem em Piu Piu, quem dirá em bípedes gigantes tentando me capturar. Até te imagino piando: “ain eu sou a Geórgia, sou muito importante, os humanos querem me capturar porque sou bela e sei voar, piupiupiu”. Eu não me acho importante, Cleuza. Mas eu já vi os humanos várias vezes, e você é tão cagona que nunca saiu daqui. Eles existem, e eu não preciso te explicar isso. Enfim.

Já estava anoitecendo quando eu finalmente consegui sair. Tu acredita que a saída estava embaixo daquelas que eu estava tentando usar? Passei quase o dia todo sem comer porque não tentei sair pela luz de baixo. Mas também, Piu Piu que me livre. Era a única que estava cheia de coisa esquisita por perto. Vai que aquelas coisas se movem. Eu é que não ia pagar para ver. Os humanos são muito assustadores.

— Ai Geórgia, mas tu é burra, hein? A tal da passagem aberta lá o tempo todo e você batendo cabeça onde esse seu Deus dizia pra tu não ir. Que teimosia mais besta.

— É bem fácil para você piar isso né, Cleuza? Não vem com esse papo de canarinho não. Como é que eu ia imaginar que a saída estava justo no meio daquele monte de coisa estranha? Eu não queria descer no chão. E se eu morresse, Cleuza?!

— Ah, faça-me o favor, Geórgia! Não morreu, morreu? Pois então. Seu Deus Piu Piu deve tá é rindo da tua cara.

— Você é impossível, Cleuza. Eu ouvi o canto de Piu Piu. Quer acreditar, bem. Não quer, piumém.

— Tá, tá, Geórginha. Agora chega de papo divino, vamos caçar inseto que eu tô com fome. Me piaram que tem um tanto de mosquito por ali.

— Tá bem, mas vamos com cuidado. Hoje eu só subo em árvore, não entro em mais lugar nenhum.

Pablo, o humano

Estou na casa da minha namorada. Era por volta de 13h quando ela ouviu um pássaro bater asa na sala e me alertou. Fechou as janelas e portas ao nosso alcance e apagou as luzes, deixando a porta da sala completamente aberta. Ela disse que isso já tinha acontecido outras vezes, então não deveria ser um problema a saída desse sabiá. Sugeri que prendêssemos as cachorras para fora, que já estavam de olho no tal do passarinho.

A sala de estar da casa (que tem um pé direito de uns cinco metros) tem duas daquelas janelas de vidro no ponto mais alto da parede, uma de cada lado do cômodo. Eu não sei se o nome disso é janela, mas existe para aumentar a luminosidade do ambiente e deixá-lo mais aconchegante.

Ficamos observando o sabiá por alguns minutos, na esperança de que saísse logo. Não demorou e chegou uma mamangava ao seu lado, com o mesmo problema. A mamangava se debateu no vidro até a morte, e isso durou um bom tempo.

Nesse período, antes da morte da mamangava, tentei colocar um vídeo no YouTube com sons de sabiá. O primeiro que encontrei se chamava “FÊMEA SABIÁ CHAMANDO”. Será que aquele era macho ou fêmea? Bom, tentei o vídeo da fêmea chamando. Não deu certo. Em seguida, coloquei o canto flauteado de sabiá. Posicionei o celular na porta da sala, por onde esperávamos que ele saísse. Deixei os sons rolando por uns 20 minutos e, embora o pássaro tenha ficado agitado, não conseguiu identificar de onde vinham.

— Você já começou a escrever aqueles contos? — minha namorada perguntou. Um de meus projetos de 2021 é escrever contos de coisas cotidianas. Não costumo exercitar esse tipo de escrita e quero começar a fazer isso.

— Não, mas daria um ótimo conto, o de uma sabiá contando para as amigas os apuros que passou na sua sala de estar. É nisso que você está pensando também?

— É. — rimos juntos.

Continuamos observando por algum tempo e decidimos deixá-lo em paz. Ele conseguiria encontrar a saída em algum momento.

Sentei a bunda na cadeira e comecei a escrever este conto. Um dia que tinha no planejamento cursos online e texto de SEO acabou virando isso aqui.

Depois de umas três horas, ainda tentamos uma estratégia (não recomendada pelo artigo com 12 passos para tirar um passarinho de sua casa) de direcioná-lo com redes de limpar piscina e lençóis pendurados. Bom, o autor do artigo tinha razão. Ele só ficou mais agitado e não conseguimos fazê-lo descer. Desistimos de novo.

Depois de alguns pios (que, ao meu ver, eram pedidos de ajuda ou lamentações), começou a anoitecer. Acendemos a luz do alpendre e, após mais algum tempo, o sabiá finalmente encontrou a saída. Embora eu o chame de “o sabiá” por aqui, assumi arbitrariamente que fosse uma fêmea.

Ainda bem que a Geórgia saiu da sala.

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(Metido a) escritor. Ex-tímido. Engenheiro não praticante. Pago de engraçadão em interações sociais. Não gosto de alho.

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