Photo by Tom Pumford on Unsplash

Fazia tempo que eu não chorava

Não costumo chorar. Normalmente trato os meus sentimentos com certa hostilidade, reprimindo-os o máximo que puder. Talvez porque tenha aprendido com as gerações mais antigas que homem não chora, ou com o conteúdo da televisão brasileira, ou até mesmo com o Pablo do Arrocha, meu xará. O fato é que, para mim, o choro deixou de ser natural há muito tempo. Então todo choro novo é genuíno demais para passar despercebido.

É claro que não estou levando em conta filmes e vídeos emocionantes no YouTube. Devem ter escorrido algumas lágrimas em situações assim, quando eu assistia a algo bonito, triste ou vitorioso (conquistas me emocionam). Para você ter uma ideia, não é incomum que eu assista a vídeos no YouTube que me façam chorar - uma forma de descarregar as emoções e me sentir um pouco mais humano. Eu assisto a veteranos de guerra retornando para casa e reencontrando seus filhos, ao cego cantando Eminem e "destruindo" no piano, à surda cantando em um dos tons mais altos que já ouvi de uma voz humana (e afinada, claro), ao paraplégico se tornando comediante... Enfim, gente que passa por cima das dificuldades (especialmente as incontroláveis) inspira e emociona. E essa gente sempre me ajudou a tratar meus sentimentos de uma forma acolhedora.

Até então, a última vez que eu havia chorado foi no final de 2018, em um término de namoro. Foi a primeira vez que um namoro meu terminou de forma consensual e saudável para ambos. Obviamente não foi um término feliz, mas é fato que foi saudável. Lembro de voltar da estação de metrô caminhando para casa e soluçar por mais da metade do caminho. Aquele choro de criança, com o beiço trêmulo e o nariz escorrendo. O choro da perda é meio descontrolado, difícil de segurar. O de alegria não. Ao menos em minhas vivências, controlar o "choro feliz" sempre foi mais fácil. Mas, dessa vez, eu não consegui me conter.

Estou em quarentena há quatro meses. E já são quase cinco sem ver a minha família. Nunca fiquei tanto tempo distante deles, mas, de certa forma, (olha que doido) essa distância serviu para nos aproximar. Ontem eu recebi uma caixa de papelão bem grande, e pesada também. Origem: Poços de Caldas. Minha família me mandou pão caseiro, bolo, bolachas, chocolates, doces de leite, geleia, chicletes, cervejas, cachaça e uma camiseta. Deu para entender que era "uma SENHORA caixa"? Pois então. E todos escreveram um bilhete à mão. Veio recado das avós, da tia, do tio, da bisa, da tia-avó e dos pais. Quando terminei de ler o último bilhete, desabei. Chorei como se fosse tristeza, como se não houvesse mais forças para repreender aquele sentimento (e não havia mesmo). Foi daqueles choros de fazer careta, chupando beiço e tentando formar palavras com F. Levei a mão à cabeça e fiquei desconcertado comigo mesmo, em meu próprio quarto, chorando e tentando acolher aquilo que senti.

Eu sei o que é esse sentimento há muito tempo. Consigo compreendê-lo, embora minha relação com ele seja casual, sem profundidade. Daquelas de revisitar só quando você precisa, sabe?
Mas ontem eu o senti de verdade. Abracei e acolhi o que havia dele em mim. Ontem, genuinamente, eu conheci a saudade.

--

--

(Metido a) escritor. Ex-tímido. Engenheiro não praticante. Pago de engraçadão em interações sociais. Não gosto de alho.

Love podcasts or audiobooks? Learn on the go with our new app.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store