Eu não sei o que quero da vida

Parte I

Eu nunca tive certeza do que quero fazer com a minha vida profissional. Já quis ser jogador de futebol, exorcista, jogador de basquete e CEO de uma multinacional. Mas a verdade é que eu nunca tive plena convicção de que alguma dessas vontades era realmente minha, de que o meu sonho era aquele.

Ah! O sonho… “Qual é o seu sonho grande?” — já ouvi essa pergunta algumas vezes. Eu sei lá qual é o meu sonho grande. Mal consigo enxergar os meus próximos 2 anos de vida, quem dirá os próximos 10, 20. Nunca gostei do conceito de “sonho grande”, nem da necessidade de encontrá-lo a qualquer custo. Essa obsessão por definir uma meta de longo prazo me consumiu por algum tempo, e eu sempre funcionei melhor com objetivos de prazo mais curto.

Mas cheguei em um ponto em que, mesmo que eu não soubesse o objetivo final, precisava ao menos escolher que caminho eu queria trilhar. Isso porque comecei a sentir falta de um porquê maior do que o aprendizado ou o desafio. Talvez fosse a necessidade de sentir que o meu trabalho gera um impacto positivo na vida das pessoas, ou a necessidade de um propósito social por trás do CNPJ da empresa onde trabalho, ou então fosse só a necessidade de estar tranquilo quando eu me pergunto: “faz sentido para mim?”.

Bom, acho que era um pouco de tudo isso. E uma coisa que eu quero compartilhar com você é que as minhas decisões de carreira anteriores apenas seguiram o fluxo, sem muita reflexão sobre o caminho a ser trilhado, ou o setor em que eu queria atuar. Abracei as oportunidades que apareceram para mim, mas não busquei ativamente as oportunidades que eu queria, porque, bom, eu não sabia o que queria.

Acredito que isso tenha acontecido porque eu nunca fui forçado a ter essa reflexão, ou essa linha de pensamento. Eu não tenho uma coisa que me dói, um sentimento forte que me leve a dedicar a vida para a resolução de um problema. A verdade é que eu não tive uma vida difícil, minha família sempre proveu tudo o que eu precisava. Não presenciei uma situação tão lamentável que me fizesse ter certeza de que o meu trabalho seria em prol de melhorar aquilo. (Inclusive, eu poderia discorrer sobre privilégios, mas não é a intenção desse texto. Tenho consciência dos meus privilégios e, para a leitura desse artigo, essa informação é suficiente).

Dado esse contexto, eu precisava fazer uma escolha. Eu precisava direcionar a minha própria carreira, fazer algo que fosse uma iniciativa minha, e não uma abordagem de alguém que me conhece e diz: “tem tudo a ver com o seu perfil”. Eu quem deveria saber onde quero encaixar o meu perfil e para quê usar as minhas habilidades. E, para fazer isso, era preciso entender em que setor eu queria atuar, que bandeira eu queria levantar.

Tomar essa decisão foi algo que eu posterguei por muitos anos. Até aqui, não havia feito o exercício de procurar sobre as possibilidades do mercado, de entender as possíveis atuações de cada setor, sequer elenquei as áreas pelas quais eu tinha algum interesse. Era hora de fazer uma escolha realmente minha.

Parte II

De forma geral, em meus processos de tomada de decisão, converso com pessoas em quem confio para ouvir diferentes pontos de vista e entender em qual deles o meu se encaixa. Pois bem. Não fiz diferente aqui, mas dessa vez o intuito das conversas foi além de ouvir opiniões: eu queria aprender. Para isso, listei todos os setores de mercado que me interessavam e, em seguida, todas as pessoas que conheço que trabalham nesses setores. Falei com cerca de 10 pessoas. E foram papos super ricos! Mas ainda não era aquilo, aquelas áreas ainda não me chamavam a atenção como deveriam, ou como eu esperava.

Depois de tantos diálogos, tive uma reflexão que mudou o rumo do meu processo de decisão. Em um momento de devaneio, me peguei me questionando se, talvez, eu não estivesse buscando uma causa alheia. O que eu quero dizer com isso? Que acho incrível trabalhar por uma educação melhor no Brasil, mas que não me sinto conectado com isso diretamente. É uma área de trabalho que admiro muito, mas ainda não parecia ser esse o caminho. Eu percebi que estava buscando uma resposta externa para uma questão puramente interna.

Quando me aprofundei nesse ponto, pensando em coisas que realmente gosto de fazer, tudo que me veio à mente foram atividades, de alguma forma, relacionadas à comunicação. Pensei em jornalismo, storytelling, YouTube, comédia e afins. Naquele momento, eu ainda pensava nas possibilidades de forma ampla, porque não conhecia o mercado de comunicação muito bem, e tinha pouca clareza de quais eram os caminhos possíveis. Mas o fato é que, me imaginando como comunicador, eu podia me ver me divertindo com o meu trabalho.

Veja: em 2012, quando tomei a decisão de que curso fazer, a dúvida final era entre Engenharia ou Jornalismo. O que percebi nesse processo de reflexão mais recente é que, a partir do momento que tomei a decisão de cursar Engenharia de Produção, deixei de lado todas as coisas relativas à comunicação que eu costumava fazer por hobby. Eu fazia parte de um canal do YouTube, escrevia textos de comédia e escrevia prosas e poesias em um blog — que ainda existe, por sinal. Embora eu não soubesse disso na época, eu estava me desconectando de uma parte de mim.

Quando pensei nisso tudo, lembrei de uma das 10 conversas que tive, com um amigo da faculdade. Logo no início do papo, antes de ele contar como foram seus 3 anos em consultoria, ele perguntou: “E aí pai, não vai seguir no stand up?”. E aquilo só me veio à mente de novo alguns dias depois. Resolvi perguntar a ele porque tinha dito aquilo. Aquela era uma visão que ele realmente tinha sobre mim ou era só uma brincadeira?

A resposta dele foi a seguinte: “Acho que você leva jeito mesmo. (…) Acho que esse mundo de comunicação se encaixa com você, não sei se só pelo nosso tempo de faculdade, mas eu sinto isso. E são poucas as pessoas pelas quais eu sinto isso (…)”. Pois é, não era brincadeira. E aqui eu entendi uma coisa muito importante: não era só o que eu gostava de fazer, também era a visão que as pessoas tinham de mim.

Parte III

Pois bem. Falei com mais algumas pessoas. Amigos jornalistas (ou quase), freelancers, escritores e influenciadores. Comprei um curso de comunicação criativa, e outro de gatilhos do humor. Ainda não comecei nenhum dos dois, claro. Mas tenho tirado mais tempo para fazer isso aqui. Escrever. E tem sido ótimo. Ainda não sei responder se vou seguir no stand up. O processo de decisão vai ser mais longo do que eu imaginei. Vou precisar testar muita coisa até lá. E, como não dá para testar tudo que eu gostaria por estar em quarentena, começo com o que dá. Você vai ver mais textos meus aqui de agora em diante.

Decidir o que quer fazer da vida é um trem difícil, mas tem sido um processo interessante, para dizer o mínimo. Ah! Se todo mundo fizesse o que ama…

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(Metido a) escritor. Ex-tímido. Engenheiro não praticante. Pago de engraçadão em interações sociais. Não gosto de alho.

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