Photo by Jeff James on Unsplash

Diário de um desempregado

(nem tão diário assim)

Eu estou desempregado. Foi uma decisão que tomei porque (1) eu não estava bem, (2) eu tinha reservas financeiras suficientes para isso, (3) meus pais poderiam me acolher em casa e (4) tenho privilégios que nem sei listar. Não tenho nenhuma intenção de romantizar o desemprego, nem o pedido de demissão sem um próximo passo definido. Foi uma decisão circunstancial, e sei que nem todo mundo pode fazer da mesma forma.

Disclaimer: como a maioria dos diários (ou pelo menos o que imagino deles), não há muita linearidade no que escrevi aqui. Mas, em grande parte, são reflexões importantes para decidir o que fazer em relação à minha carreira. Os primeiros relatos são dispersos, mas necessários. Com o passar do tempo, os pensamentos ficaram mais maduros e realistas. Espero que lhe seja útil.

Segunda-feira (09/11/2020)

Hoje eu acordei às 11h. Fazia tempo que isso não acontecia. Até mesmo nos fins de semana, eu não vinha conseguindo dormir muitas horas. É verdade que navegar no YouTube até às 03h da manhã não contribuía, mas eu esperava que aos sábados e domingos isso pudesse ser diferente. Provavelmente o meu corpo havia se acostumado com a reunião das 09h. Bom, apesar disso, o primeiro dia útil desempregado foi o suficiente para me desligar por mais de 8 horas. Eu precisava disso.

Meu primeiro dia de desemprego foi regado à PlayStation 3. Inclusive, esse Ps3 foi resultado de uma “herança” engraçada (talvez a palavra seja “sobra” mesmo). Meu amigo, com quem eu morava, conseguiu o console empresatado com um colega dele (vamos chamá-lo de Cléber). Depois de uns meses, o Cléber disse a ele que poderia ficar com o videogame, que era um presente. Passado mais algum tempo, decidimos nos mudar, cada um para um lugar; e aí meu amigo disse que eu poderia levar o Ps3, com a condição de que ele ficasse com o narguilé. Foi a melhor divisão de bens que eu já fiz.

Enfim, um dia resumido em Ps3. Também teve bagunça com os cachorros, mas só. A princípio, meu planejamento para esse início de período sem emprego é passar uma semana sem me preocupar, jogando videogame, lendo romance e assistindo a qualquer coisa na Netflix. Mas, para ser sincero, não sei se isso vai durar muito. Hoje mesmo eu já me senti entediado. Veremos quanto tempo de “detox” eu aguento. Por ora, vou parar de escrever aqui para jogar uma partida de xadrez online. Até amanhã.

Terça-feira (10/11/2020)

Acordei às 10h40, antes do que eu gostaria. Ontem foi mais um dos dias em que eu dormi mais tarde que o necessário. Enrolei na cama até às 11h15 e me levantei. Meus pais já estavam saindo para almoçar fora, não dava tempo de preparar o almoço. O que eu fiz foi um belo almoço da manhã: tapioca de presunto e queijo, ovos mexidos com pimenta biquinho, filé de peixe que sobrou de ontem e, para complementar, iogurte grego caseiro com granola. Para beber, um iogurte de frutas vermelhas. Combinação incomum, eu sei. Mas foi um ótimo almoço, e supriu minha vontade de não pular o café da manhã.

Feito isso, Netflix — intercalado com jogar bolinha com os cachorros. Um pouco do período vespertino foi reservado para resolver algumas coisas (como marcar uma consulta no dentista) e, depois, voltamos ao Netflix. O clássico passeio pelo bairro com os cachorros (para que eles façam cocô) veio logo na sequência. Por algum motivo, a Maggie não gosta de cagar em casa, nem mesmo no jardim. Então criamos uma rotina de passeio diário para uma cagada confortável.

Quando voltei, a noite já se aproximava. Fiz mais umas coisinhas no computador, treinei (o abdômen sofreu) e tomei banho em seguida. Peguei uns 10 pães de queijo que haviam acabado de sair do forno e fui para a casa do meu tio. Estava devendo uma visita desde que cheguei a Poços de Caldas. Foi uma boa prosa, fiquei lá por três horas. E concluí que ele se alimenta como um universitário. A despensa tinha miojo, paçoca, sal, açúcar, balas de menta, Club Social e salgadinhos. A geladeira também tinha pouco a oferecer. Demos risada disso, afinal ele tem quase 50 anos. Foi um primeiro passo para me reconectar com a família. Esse é um dos objetivos desse período de desemprego. Amanhã tem mais: irei à casa de minha tia avó. Por ora, dia encerrado. Retomarei minha consciência a partir das 11h. Tenha uma boa noite.

Quarta-feira (11/11/2020)

É claro que ontem assisti a mais dois episódios antes de dormir. Os últimos da série O Gambito da Rainha. Baita série. A narrativa é bem construída, o elenco atua bem e, especialmente para quem gosta de xadrez, o esporte é tratado de uma forma mais interessante do que é abordado por aí. Gostei muito. Tanto que retomei a jogar online algumas vezes nesta semana, e hoje assisti a algumas análises de partidas no YouTube (inclusive as da série). Xadrez é um jogo fascinante. São muitas as possibilidades para um tabuleiro de 64 casas.

O despertar veio às 09h40. Não era o que eu esperava para esta manhã, mas tudo bem. Enrolei meia hora na cama, cumpri a rotina matinal do banheiro, comi iogurte com granola, tomei banho e almocei. Meus pais saem de casa antes do meio dia. Desta vez, saí com eles. Tinha uma consulta médica às 13h30, que durou menos de 15 minutos. Fui levar o resultado dos exames de check-up. Tudo certo.

Segui a programação do dia indo para a casa da minha tia avó. Marquei um café com ela para conversarmos e eu conhecer seu novo apartamento (ela morava em Belo Horizonte até o ano passado). Falamos sobre saúde, carreira, escrita, leitura, filmes de guerra e do Oscar. Paramos para ela colocar os pães de queijo para assar. Fizemos o clássico tour de apartamento novo e conversamos por um tempo sobre seu design. Retomamos as conversas não programadas falando sobre família, seus tempos de casada, meus planos de vida, feminismo, igreja e Deus. Compartilhamos nossas visões sobre sua existência e nossas vivências na relação com Ele. Ambos questionamos a religião, de formas diferentes, mas com conclusões semelhantes — as dela bem mais maduras, e menos rebeldes também. Revi minha forma de pensar sobre muitas coisas e reforcei minha ideia de que tenho uma tia avó muito culta, que questiona com senso crítico e dialoga com mente aberta. Foi uma ótima tarde. Nem nos demos conta de que já chegava o anoitecer.

Saí de lá e fui para casa. Alimentei os cachorros, passeei com eles e jantei na sequência. Voltei ao centro para buscar meu pai. Falamos sobre o vizinho da escola de música, que aparentemente não é flor que se cheire. Cheguei em casa de novo. Brinquei com os cachorros e assisti a um episódio de House of Cards com minha mãe. Eu já assisti à temporada toda, mas ela começou há poucos dias e estou revendo alguns episódios. Não fosse a sexta temporada, seria minha série preferida. A Claire merecia conquistar seu espaço sem uma transição tão brusca. Ainda assim é uma excelente série, e estou (re)assistindo alguns trechos com minha mãe. Vimos mais um hoje e conversei mais um pouco com meu pai. Depois de um banho rápido, cá estou. Acho que paro antes de 01h30 hoje, por incrível que pareça. Amanhã tem mais. Será um bom dia.

Quinta-feira (12/11/2020)

Eu preciso parar de me enganar. Mais uma vez, fui até às 03h da manhã. Eu devia saber. Mas tudo bem, acordei, tomei meu café e passei o dia tentando iniciar uma leitura. O máximo que consegui foi ler umas 10–12 páginas de um livro e o prefácio de outro. Pouco avanço no período diurno. Às 17h eu desisti e fui jogar videogame. Ao menos saí com os cachorros duas vezes no dia, e aprontaram uma correria brincando de bolinha no quintal.

A noite foi mais agitada. Tive um papo com um conhecido dos tempos de Universidade, para entender sobre o setor de atuação dele e conversar sobre o mercado. Foi uma conversa importante, gerou alguns insights e abri a cabeça para algumas possibilidades. Na sequência, sessão de Among Us com a turma da faculdade. Joguei bem hoje. Quem sabe não faço uma stream qualquer hora dessas?

Bom, o dia foi esse. Mais parado que os anteriores, mas bom para esvaziar a mente. Expectativa de pegar no sono: tarde.

Sexta-feira (13/11/2020)

Hoje eu li, e passei boa parte da tarde no YouTube. A leitura me fez pensar. Estou lendo um livro do Phil Jackson e me surpreendeu como a minha vivência com a fé é parecida com a dele. Frustrações parecidas também. A diferença é que ele buscou espiritualidade de outras formas, enquanto eu — ao menos por ora — abri mão dela. Pois bem. Além da leitura, o dia teve boas novidades.

Enfim recebi notícia sobre o processo seletivo de uma empresa pela qual me interesso. É uma consultoria. Não estou 100% certo de que é esse o caminho que quero seguir, mas acho que me daria bem, e creio que a dinamicidade das mudanças de projeto me manteria motivado. Tenho uma entrevista e resolução de case na semana que vem. Precisarei estudar sobre o tema do case. Vai ser uma boa maneira de retomar uma rotina mais sólida, afinal de contas tirei essa semana para não fazer muita coisa.

A outra boa novidade é que tive resposta do pessoal do Papo de Homem. Escrevi a eles perguntando como eu poderia ser produtor de conteúdo para o blog. A editora me respondeu dizendo que gostou dos meus textos e que posso usar o espaço deles para publicar. Incrível, né? Ainda não sei como isso vai ser, mas a resposta me animou.

Também teve passeio com os cachorros, treino, papo com a minha mãe e um pouco de Netflix. Dia tranquilo, com bons avanços no processo de entender o que fazer da vida.

Segunda-feira (16/11/2020)

Optei por não escrever no final de semana. Não queria ter esta “obrigação” nos dias de descanso. Não que eu esteja ficando cansado por alguma coisa, afinal estou desempregado. Mas o ponto é que quero criar essa rotina nos dias úteis, especialmente. Se vier alguma inspiração no final de semana, ótimo. Mas meu compromisso é de escrever de segunda a sexta-feira, assim não prometo algo que posso não cumprir e, consequentemente, não me frustro em vão.

O sábado rendeu uma tarde de estudos com um amigo. Ele participava do clube de consultoria da UNIFEI, onde o pessoal estudava para processos seletivos de consultoria e aprendia as técnicas e metodologias para resolução de problemas. Talvez fizessem coisas além disso, mas não sei dizer porque, bom, eu não participava do clube. De qualquer modo, ele me ajudou muito aplicando alguns cases e dando feedbacks do meu desempenho na resolução deles. O cara tirou uma tarde de sábado para me dar essa moral, e foi uma baita aula. Aprendi bastante com ele. Me sinto mais confiante para a entrevista de quinta-feira.

Hoje acordei bruscamente. Meus pais marcaram uma dedetização em casa e tivemos que sair por conta do veneno. Sugerem que fiquemos fora do ambiente por 6 horas, mas os cachorros têm que ficar fora por 24h. Estão dormindo na área de serviço hoje, sem entender por que raios não podem entrar. Os bichinhos sentem — e a gente também.
Passei o dia na casa dos meus avós, o que foi bom. Conversei com minha avó e meu tio, e ainda revi a Gláucia (diarista da família há uns 20 anos). Não a via há um bom tempo. Fez bem passar um tempinho com eles.

Peguei parte da tarde para começar a ler o livro “O Design da Sua Vida”. Minha namorada me deu de presente há algumas semanas, e ela não é a única que o recomendou. Eu preciso mesmo de algo que me ajude a organizar os pensamentos e direcioná-los para uma tomada de decisão — breve, se possível. Ainda estou no início, mas a leitura é leve e rápida. O que pode levar tempo são os exercícios durante o processo, mas já se foram 30% dele. Até o momento, parece que vai atender às minhas expectativas.

Também tive sessão da terapia, no final da tarde, e serviu para entender meus avanços. Eu sei que avancei no processo, que estou no caminho certo para tomar as decisões que preciso tomar e seguir algum rumo. Mas a conversa de hoje me ajudou a enxergar o que isso significa e a reconhecer que evoluí na construção desse caminho. Conversamos sobre as novidades da última semana, como eu tenho me sentido, o que tenho projetado para o futuro e quais foram as mudanças de raciocínio desde que iniciamos as sessões. Um papo que surgiu no meio disso foi sobre propósito, quando eu falei que “tenho visto o propósito como algo a ser construído, não a ser encontrado”. E, em menos de 1s, ela exclamou: “ANOTA ISSO!”. Anotei, lógico. Ela nunca tinha sido tão enfática.

Acho que ela fez bem em me pedir para anotar. De fato, é importante: o propósito é algo a ser construído, não a ser encontrado. Esse entendimento me dá a tranquilidade que eu nunca tive para essa busca incerta. É preciso explorar para encontrar o propósito, e eu vinha mais me perguntando que propósito é esse do que explorando para descobrir onde ele está. Estou contente com as conclusões a que tenho chegado. Meu processo está avançando e estou me sentindo produtivo com tudo isso. Coisa boa.

Quarta-feira (18/11/2020)

Ontem eu não escrevi e por pouco não escrevo hoje também. Por um lado, foram dias “parados”, sem grande produtividade de minha parte. Por outro, foram dias de esvaziar a mente e me preparar para o que vem por aí — a entrevista com a consultoria. Estou ansioso para isso, e animado também. Hoje aproveitei meu pico de produtividade noturno e tirei algumas horas para estudar o tema do caso que terei que resolver. Além disso, um amigo se disponibilizou para aplicar um case amanhã, vai ser mais um bom treinamento. Como ele disse, eu “certamente deveria ter estudado mais, mas às vezes a ignorância ajuda”. Espero que seja esse o caso.

Não escrevo mais porque preciso dormir. Quero estar descansado amanhã, e não acordar depois das 10h será importante também. Tem dia que a gente foca no que tem que focar. Amanhã eu escrevo mais.

Quinta-feira (19/11/2020)

Fazia tempo que eu não sentia um frio na barriga. Hoje eu senti. Fiz a entrevista para a consultoria, que foi dividida em duas partes: entrevista de fit e resolução de case. Acredito que tenha me saído bem em ambas. Poderia ter estudado mais? Poderia sim (deveria, inclusive). Mas fui bem; acredito que passe para a próxima etapa do processo. O avaliador deu feedback antes do fim da entrevista e o retorno foi positivo. Ele disse que eu poderia ter feito mais perguntas no início (a fim de garantir que seguiria o caminho certo para a resolução); mas, tirando esse ponto, a avaliação foi positiva. Agora é esperar o retorno por e-mail.

Antes da entrevista, o amigo que se disponibilizou para me ajudar ficou 1h30 comigo no telefone, aplicou dois cases e deu pelo menos 10 dicas. Muitas foram bem úteis na entrevista. Fiquei pensando depois: é impressionante como as coisas vão se encaixando. Se eu somar o tempo que esses dois amigos me ajudaram na preparação para o case, dá entre 5 e 6 horas. Isso sem contar a quantidade de mensagens que responderam no WhatsApp sanando minhas dúvidas. As pessoas com quem decidimos caminhar fazem uma baita diferença na nossa vida. E eu sou muito grato a esses caras que tiraram um longo período do dia deles para me ajudar (vale uma menção honrosa a um terceiro amigo, que mandou vários links de fontes confiáveis sobre o tema do case). É o tipo de relação que eu sempre busquei: de apoiar o outro sempre que possível, e frequentemente buscar uma oportunidade para isso. Espero que todo mundo consiga construir relações assim.

Hoje foi um bom dia.

Segunda-feira (23/11/2020)

Sexta-feira a minha namorada chegou na cidade. Ela mora em São Paulo; quando eu ainda estava lá, morávamos a uma quadra de distância. E agora, como estou na casa dos meus pais por período indefinido, faremos alternâncias de quem visita quem. Ela vai passar umas duas semanas aqui.

Sexta-feira foi ótimo, mal olhei meu celular. E o fim de semana também rendeu. Jogamos jogos de tabuleiro, assistimos a séries e filmes, falamos sobre planos do futuro, corremos na avenida e comemos bastante também. (Nota mental: correr de máscara fica desafiador depois do primeiro quilômetro). Será bom tê-la por perto, mesmo que durante a semana ela esteja trabalhando e eu esteja à toa.

Tenho pensado sobre o próximo passo de carreira. A verdade é que não estou confortável com a ideia de uma mudança brusca, como me atirar em uma carreira em comunicação. Gosto de escrever, e tenho me forçado a criar o hábito de colocar as ideias no papel, tanto pelo gosto quanto pela possibilidade de organizar os pensamentos; mas não me vejo fazendo isso o tempo todo. Passar o dia escrevendo coisas e olhando para uma tela de computador me deixaria entediado, mais cedo ou mais tarde. Pelo menos no atual momento, não acho que é o tipo de rotina que me faria feliz. Eu gosto de gente. Estar continuamente em contato com outras pessoas é importante para meus processos de aprendizado e de motivação também. E esse talvez seja um fator mais importante do que a causa (ou o propósito) por trás do meu trabalho.

Há algum tempo eu quebrei minha concepção de que não sou uma pessoa curiosa. Eu sou, e sei disso. Embora sejam interesses frequentemente peculiares (ou pouco comuns), sei que a exploração e a experimentação podem ser mais frequentes. E há uma área de atuação pela qual sempre tive interesse, mas nunca busquei mais informações: consultoria. Tenho feito essa busca, e começo a pensar que pode ser um caminho que faz sentido. Ser consultor (ao que me parece) envolve observação, análise crítica e relacionamento, coisas que sei que faço bem. Também há uma necessidade de ser autodidata, um excelente contexto para que eu exercite minha curiosidade e explore coisas que não exploraria por conta própria.

Continuo sem ter convicção disso, mas é fato que estou ansioso pelo retorno da consultoria a que me candidatei. Avanços importantes para uma tomada de decisão.

Terça-feira (24/11/2020)

Hoje eu recebi a notícia de que passei para a próxima etapa do processo seletivo. Terei mais um case pela frente, na semana que vem. Estou me animando com a ideia, mas ainda não sei se é pelo desafio do processo em si ou pela perspectiva de trabalhar lá.

Ao saber que passei de fase, um amigo me fez uma pergunta importante sobre trabalhar com consultoria: “O que te deixaria convicto de que esse é o caminho que quer seguir? Ou melhor: você precisa estar convicto nesse momento?”

Uma excelente pergunta. E a minha resposta foi a seguinte: “Eu não preciso, mas gostaria. Estar convicto para mim, nesse momento, é basicamente aceitar e abraçar minha própria decisão. Ou seja, me conscientizar dos porquês dela, e dos riscos também. Eu me sentiria mais seguro para dar o próximo passo assim. E, sobre o que me deixaria convicto, acho que seria finalizar o processo racional de olhar para as variáveis, motivações e possibilidades. E, feito isso, concluir que esse é o caminho que quero. Para isso, estou lendo o livro O Design da Sua Vida e fazendo os exercícios de reflexão dele, além de escrever os pensamentos que tenho tido. Em suma: concluir isso racionalmente, além do meu feeling, suportaria a decisão e me daria segurança”. Uma boa resposta também. Bem consciente, por sinal. Foi bom ter respondido a essa pergunta, porque me trouxe uma urgência de caminhar com mais agilidade rumo a uma decisão.

Além dessa novidade, avancei bastante na conversa de publicar no portal do Papo de Homem. Troquei algumas mensagens com a editora, e a ideia é que façamos uma introdução para um dos meus textos, a fim de conectar com o tipo de conteúdo que eles costumam oferecer. O meu texto vai para um dos portais mais acessados do Brasil. Estou contente com essa oportunidade, vai ser legal ter isso como chamariz, além de ser um baita incentivo para que eu continue escrevendo. Por enquanto, obrigado a você que me lê. Espero que esteja sendo proveitoso. Um abraço pra ti.

Domingo (06/12/2020)

Já faz tempo que eu não escrevo aqui, principalmente porque estive focado no processo seletivo da consultoria. Estudei o máximo que aguentei por uma semana e, nesse período, não tive energia para fazer qualquer coisa além das necessidades fisiológicas.

Hoje eu refleti que me sinto deslocado em alguns encontros de família. Às vezes sinto que não há espaço para ser autêntico, especificamente em momentos com mais de um ou dois familiares presentes. Isso me fez pensar bastante sobre minha forma de lidar com situações um a um ou em grupo. Quando há três ou mais participantes além de mim, me sinto desconfortável para dialogar sem filtrar os pensamentos, e acabo tendo participações mais mecânicas na conversa. Sempre me saí melhor no um a um.

Segunda-feira (07/12/2020)

Há uns dias que estou entediado, sem vontade de fazer meus cursos, textos e leituras. Ontem fez um mês que não estou trabalhando. É engraçado como, embora eu saiba da importância desse período de transição, já estou criando uma ansiedade para o próximo emprego. Eu ainda nem tenho convicção de qual é o movimento que faz mais sentido, mas já quero “estar fazendo algo” de novo. Em meio ao ócio produtivo/criativo, me cobrei por não estar produzindo o suficiente. (Suficiente para quê, né? Não sei).

Nessa de me cobrar, lembrei que não posso perder de vista o objetivo da decisão que tomei há dois meses. Eu estou nessa transição para, além de encontrar um emprego, encontrar o que há em mim. Entender que propósitos tenho comigo, em vez de buscá-los em uma empresa. Eu vinha procurando organizações com propósitos que eu gostaria de comprar, mas não observava (muito menos acolhia) os meus próprios propósitos.

É provável que eu já tenha escrito isso de algumas maneiras diferentes neste diário, mas tem sido importante me fazer alguns lembretes do porquê de tudo isso. Não posso me perder de novo. E hoje eu me lembrei disso.

Domingo (20/12/2020)

Bom, é oficial: o meu diário se tornou quinzenal. Não tenho escrito porque tenho dado atenção a outras coisas — meus cursos online (que estavam parados), minhas leituras (que também estavam paradas) e à minha cabeça (que há tempos não parava de se preocupar).

Há uma semana eu torci meu pé. Estava indo correr na avenida (inclusive, troquei a máscara por uma bandana; problema resolvido), e, no caminho, pisei em falso em um declive brusco no meio da rua. A alteração de nível do asfalto mais parece um degrau, e eu não só torci o pé, como caí morro abaixo. Uma cena digna de Videocassetadas do Faustão.

Pois bem. Há uma semana que “faço gelo” no tornozelo duas ou três vezes no dia. E é engraçado como às vezes precisamos nos foder para acordar para o óbvio. Foi só depois de torcer o pé que eu consegui — de fato — passar uns dias assistindo séries e jogando videogame sem me preocupar com a falta de produtividade. Vou repetir a parte principal desta frase: sem me preocupar com a falta de produtividade. Ou seja, eu precisei torcer o pé para me aceitar numa situação de ócio. Louco, né? E o mais interessante é que depois de uns quatro dias despreocupados, eu produzi muito nos dias que se seguiram. Ainda bem que eu torci o pé.

Outra coisa bem importante desta semana foi a resposta positiva do processo seletivo. Passei para a próxima (e última) etapa. Será uma entrevista, mais para validar que faz sentido do que para testar habilidades (como nas resoluções de case). A resposta me deixou contente, mas também alerta. Afinal de contas, se eu for aprovado, precisarei saber se é isso mesmo que quero ou não. Racionalizar essa decisão tem sido necessário, mas agora preciso garantir que o timing disso esteja em paralelo com o do processo seletivo.

No decorrer da semana, conversei com alguns amigos sobre a minha busca por convicção de que é esse o caminho que quero seguir. Recebi perguntas importantes e concluí algumas coisas:

  1. É um caminho que pode fazer muito sentido. De um ponto de vista racional, ele se conecta com a minha trajetória e minhas curiosidades. Além disso, é algo que eu sempre quis testar. Então eu tenho motivos suficientes para falar “VAMO AÍ”;
  2. Eu não me conecto emocionalmente com a oportunidade, e é isso que tem me deixado com o pé atrás. Já sei que a conexão emocional é propulsora do meu nível de engajamento com o trabalho — seja ele qual for. Mas, por outro lado, também sei que essa conexão emocional teve prazo de validade em todo lugar por onde passei. Em minhas experiências anteriores, cedo ou tarde esse “combustível” acabava, porque vinham outros problemas que falavam mais alto, e assim eu perdia essa conexão. Eu preciso entender se há padrão nessas situações passadas. Que problemas são esses que me desconectaram emocionalmente?
  3. Minha intuição diz: “Vai lá, você já pensou nisso várias vezes, cogitava isso e nunca correu atrás. Você tem uma baita oportunidade na sua mão; está num momento meio perdido e a consultoria vai te abrir um leque muito legal, com mudanças constantes e projetos distintos”;
  4. Essa minha falta de convicção é mais um receio de ser um “tiro errado” do que qualquer outra coisa. Eu tenho motivos suficientes para entrar, eu sei os porquês para topar. O que falta é virar a chavinha na minha cabeça de “eu toparia por isso” para “estou topando por isso, simbora”.

Honestamente? O que tenho pensado é que agora basta abraçar a oportunidade e “cair de cabeça”, mas não vou fazer isso sem terminar o meu processo de racionalização. Não desta vez.

Para resolver o ponto (2), estou conversando com pessoas da minha rede que trabalham ou já trabalharam nessa consultoria. Quero entender a dinâmica de trabalho por lá e descobrir se os problemas que me desconectaram dos empregos anteriores também acontecem no emprego que estou almejando. Se não acontecerem, talvez eu não tenha mais motivos para não fazer desse o meu próximo passo. Risco vai ter, claro. Mas está parecendo ser algo certeiro. Eu comecei essa reflexão toda há muito tempo, já eliminei muitas alternativas, não é como se eu estivesse abraçando a primeira solução que pensei. Sinto que estou próximo de chegar a algum lugar.

Por ora, não há como negar que estou animado por estar na etapa final do processo. Vamo que vamo.

Segunda-feira (21/12/2020)

Hoje eu fiz minha última sessão de terapia do ano — e também desse processo, ciclo, como quiser chamar. Foi um bom processo. Minha terapeuta encerrou agradecendo pela oportunidade de me acompanhar e, curiosamente, disse que sou uma pessoa comunicativa, que gosta de se expressar. Não sei se estou agindo como uma nova versão de mim, ou ela só pegou o recorte do Pablo falando com a terapeuta. A verdade é que eu fico calado em muitas de minhas interações, ouço bastante antes de dizer qualquer coisa. Interessante que essa seja a percepção dela. Um assunto para reflexões de um futuro breve.

Por ora, encerro meu ciclo de terapia do ano. Assim como encerrei a leitura de um livro hoje — ótima história, por sinal. Me deu algumas ideias para os próximos projetos de escrita. Vou escrevê-las em algum lugar. O final do dia vai ser preenchido por louça, banho e curso online. Está bom por hoje.

Segunda-feira (22/02/2021)

Foram dois meses sem escrever nesse “diário”. Hoje revisitei tudo que já escrevi nele. Gostei de ler algumas coisas que minha intuição já estava tentando dizer, mas naquele momento meu processo racional de conectar os pontos ainda não tinha terminado.

Impressionante como o tempo leva e traz alguns pensamentos. Acho que esse intervalo entre perder a conclusão a que já cheguei e encontrá-la novamente tem sido o principal fator de minhas decisões mais confiantes.

A empresa de consultoria para a qual eu estava me candidatando era a EloGroup. Há três semanas eu recebi a resposta: não fui aprovado. Pode parecer meio absurdo, mas foi muito bom ter recebido esse não. Eu fiquei chateado, claro. Afinal, eu queria ser aprovado, queria trabalhar lá. Mas, embora eu tivesse consciência dessa vontade, ainda não tinha conseguido entendê-la totalmente.

Eu já via consultoria como um caminho viável, mas não estava tão certo disso. E, ao receber a negativa da Elo, fui obrigado a criar um novo plano, já que eu não estava inscrito em mais nenhum processo seletivo. Eu havia chegado no momento mais importante desse processo: (eu tentei fugir do clichê, mas não consegui evitar) o ponto de virada.

Depois de pensar e testar tantas hipóteses, a única recomendação (e vontade) que eu tinha para mim mesmo era prestar processos de empresas de consultoria. Ao ouvir o primeiro não, eu tive certeza de que tinha começado um caminho que realmente queria. Era hora de assumir essa decisão e me preparar melhor para esses processos.

Receber a negativa deu sentido para todo esse processo que estou passando. Há um ano que reflito profundamente sobre minha carreira, e os eventos mais recentes foram grandes avanços, mas ainda não eram um fim. Desde que pedi demissão (há mais de três meses), voltei a morar com meus pais. Aqui, meu único compromisso tem sido encontrar um novo caminho, e isso dependia de uma decisão. Eu saí de São Paulo para isso, e finalmente essa decisão foi tomada: trabalhar em consultoria.

A partir disso, o compromisso é outro. Estou em uma nova etapa de um processo maior. O momento agora é de me preparar. Para isso, um bom jeito de começar era olhar para o que faltou na primeira tentativa. Eu recebi o feedback do processo da EloGroup, com tudo que consideraram para que eu não fosse aprovado (achei bastante coerente, por sinal). O retorno que tive foi decorrente de dois fatores principais:

  1. Eu ainda não tinha assumido a decisão de consultoria. Muitas das minhas respostas nas entrevistas foram abertas demais. Pouco conclusivas, pouco assertivas e pouco decididas no quesito “o que eu quero da minha vida”. Eu estava tentando o processo seletivo da Elo porque gosto da empresa e da cultura que parecem ter. Mas o que eu realmente estava fazendo para me preparar? Pouco. Eu precisava fazer muito mais;
  2. Eu não estava preparado. E isso é uma consequência direta do primeiro fator. Eu mandei muito bem em chegar à fase final do processo, mas não estava pronto.

Agora que estou com a decisão tomada, tenho certeza de que muitas das respostas que dei nas entrevistas teriam sido bem diferentes hoje. E talvez eu tivesse passado. Mas é por isso que esse não foi tão importante: para tomar essa decisão.

Pois bem. Agora que já sei o que quero e os motivos para isso, vou me inscrever em outros processos de consultoria. Enfim tenho um objetivo. Um porquê, com fundamento e causa.

Terça-feira (23/02/2021)

Aprendi que o tempo é bem importante para algumas decisões, e que acelerar processos de reflexão pode ser uma baita cagada. Eu ainda não sei onde vou trabalhar, se vou passar em algum dos processos na primeira tentativa, nem se vou gostar do meu trabalho quando chegar lá. Pode ser que esse meu discurso ainda mude muito, mas, por ora, penso o seguinte: se faz sentido para o momento, melhor abraçar a ideia e ir para cima. E, se nada faz sentido, melhor tirar um tempo para conectar os pontos. Tem funcionado por aqui.

--

--

(Metido a) escritor. Ex-tímido. Engenheiro não praticante. Pago de engraçadão em interações sociais. Não gosto de alho.

Love podcasts or audiobooks? Learn on the go with our new app.

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store