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Como tomei uma decisão de carreira

Um relato conclusivo sobre um longo processo

Eu estou desempregado. Foi uma decisão que tomei porque (1) eu não estava bem, (2) eu tinha reservas financeiras suficientes para isso, (3) meus pais poderiam me acolher em casa e (4) tenho privilégios que nem sei listar. Não tenho nenhuma intenção de romantizar o desemprego, nem o pedido de demissão sem um próximo passo definido. Foi uma decisão circunstancial, e sei que nem todo mundo pode fazer da mesma forma.

Dito isso, separei alguns trechos de um diário que decidi escrever assim que saí do meu último emprego. Se você quiser ler o diário completo, pode encontrá-lo aqui. Mas, neste artigo, selecionei apenas as reflexões do diário que tinham vínculo direto com a minha decisão de carreira mais recente.

Sexta-feira (13/11/2020)

[…] Enfim recebi notícia sobre o processo seletivo de uma empresa pela qual me interesso. É uma consultoria. Não estou 100% certo de que é esse o caminho que quero seguir, mas acho que me daria bem, e creio que a dinamicidade das mudanças de projeto me manteria motivado. Tenho uma entrevista e resolução de case na semana que vem. Precisarei estudar sobre o tema do case. Vai ser uma boa maneira de retomar uma rotina mais sólida, afinal de contas tirei essa semana para não fazer muita coisa. […]

Segunda-feira (16/11/2020)

[…] O sábado rendeu uma tarde de estudos com o apoio de um amigo. Ele participava do clube de consultoria da UNIFEI, onde o pessoal estudava para processos seletivos de consultoria e aprendia as técnicas e metodologias para resolução de problemas. Talvez fizessem coisas além disso, mas não sei dizer porque, bom, eu não participava do clube. De qualquer modo, ele me ajudou muito aplicando alguns cases e dando feedbacks do meu desempenho na resolução deles. O cara tirou uma tarde de sábado para me dar essa moral, e foi uma baita aula. Aprendi bastante com ele. Me sinto mais confiante para a entrevista de quinta-feira.

[…] Hoje tive sessão da terapia, no final da tarde. E foi uma sessão para entender os avanços. Eu sei que avancei no processo, que estou no caminho certo para tomar as decisões que preciso tomar e seguir algum rumo; mas a conversa de hoje me ajudou a enxergar o que isso significa e a reconhecer o quanto evoluí na construção desse caminho. Conversamos sobre as novidades da última semana, como eu tenho me sentido recentemente, o que tenho projetado para o futuro e quais foram as mudanças de raciocínio desde que iniciamos as sessões. Um papo que surgiu no meio disso foi sobre propósito, quando eu falei que “tenho visto o propósito como algo a ser construído, não a ser encontrado”. E, em menos de 1s, ela exclamou: “ANOTA ISSO!”. Anotei, lógico. Ela nunca tinha sido tão enfática.

Acho que ela fez bem em me pedir para anotar. De fato, é importante: o propósito é algo a ser construído, não a ser encontrado. Esse entendimento me dá a tranquilidade que eu nunca tive para essa busca incerta. É preciso explorar para encontrar o propósito, e eu vinha mais me perguntando que propósito é esse do que explorando para descobrir onde ele está. Estou contente com as conclusões a que tenho chegado. Meu processo está avançando e estou me sentindo produtivo com tudo isso. Coisa boa.

Quarta-feira (18/11/2020)

Ontem eu não escrevi e por pouco não escrevo hoje também. Por um lado, foram dias “parados”, sem grande produtividade de minha parte. Por outro, foram dias de esvaziar a mente e me preparar para o que vem por aí — a entrevista com a consultoria. Estou ansioso para isso e, estranhamente, animado também. Hoje aproveitei meu pico de produtividade noturno e tirei algumas horas para estudar o tema do caso que terei que resolver. Além disso, um amigo se disponibilizou para aplicar um case amanhã, vai ser mais um bom treinamento. Como ele disse, eu “certamente deveria ter estudado mais, mas às vezes a ignorância ajuda”. Espero que seja esse o caso.

Não escrevo mais porque preciso dormir. Quero estar descansado amanhã, e não acordar depois das 10h será importante também. Tem dia que a gente foca no que tem que focar. Amanhã eu escrevo mais.

Quinta-feira (19/11/2020)

Fazia tempo que eu não sentia um frio na barriga. Hoje eu senti. Fiz a entrevista para a consultoria, que foi dividida em duas partes: entrevista de fit e resolução de case. Acredito que tenha me saído bem em ambas. Poderia ter estudado mais? Poderia sim (deveria, inclusive). Mas fui bem; acredito que passe para a próxima etapa do processo. O avaliador deu feedback antes do fim da entrevista e o retorno foi positivo. Ele disse que eu poderia ter feito mais perguntas no início (a fim de garantir que seguiria o caminho certo para a resolução); mas, tirando esse ponto, a avaliação foi positiva. Agora é esperar o retorno por e-mail.

Antes da entrevista, o amigo que se disponibilizou para me ajudar ficou 1h30 comigo no telefone, aplicou dois cases e deu pelo menos 10 dicas. Muitas foram bem úteis na entrevista. Fiquei pensando depois: é impressionante como as coisas vão se encaixando. Se eu somar o tempo que esses dois amigos me ajudaram na preparação para o case, dá entre 5 e 6 horas. Isso sem contar a quantidade de mensagens que responderam no WhatsApp sanando minhas dúvidas. As pessoas com quem decidimos caminhar fazem uma baita diferença na nossa vida. E eu sou muito grato a esses caras que tiraram um longo período do dia deles para me ajudar (vale uma menção honrosa a um terceiro amigo, que mandou vários links de fontes confiáveis sobre o tema do case). É o tipo de relação que eu sempre busquei: de apoiar o outro sempre que possível, e frequentemente buscar uma oportunidade para isso. Espero que todo mundo consiga construir relações assim.

Hoje foi um bom dia.

Segunda-feira (23/11/2020)

[…] Tenho pensado sobre o próximo passo de carreira. A verdade é que não estou confortável com a ideia de uma mudança brusca, como me atirar em uma carreira em comunicação. Gosto de escrever, e tenho me forçado a criar o hábito de colocar as ideias no papel, tanto pelo gosto quanto pela possibilidade de organizar os pensamentos; mas não me vejo fazendo isso o tempo todo. Passar o dia escrevendo coisas e olhando para uma tela de computador me deixaria entediado, mais cedo ou mais tarde. Pelo menos no atual momento, não acho que é o tipo de rotina que me faria feliz. Eu gosto de gente. Estar continuamente em contato com outras pessoas é importante para meus processos de aprendizado e de motivação também. E esse talvez seja um fator mais importante do que a causa (ou o propósito) por trás do meu trabalho.

Há algum tempo eu quebrei minha concepção de que não sou uma pessoa curiosa. Eu sou, e sei disso. Embora sejam interesses frequentemente peculiares (ou pouco comuns), sei que a exploração e a experimentação podem ser mais frequentes. E há uma área de atuação pela qual sempre tive interesse, mas nunca busquei mais informações: consultoria. Tenho feito essa busca, e começo a pensar que pode ser um caminho que faz sentido. Ser consultor (ao que me parece) envolve observação, análise crítica e relacionamento, coisas que sei que faço bem. Também há uma necessidade de ser autodidata, um excelente contexto para que eu exercite minha curiosidade e explore coisas que não exploraria por conta própria.

Continuo sem ter convicção disso, mas é fato que estou ansioso pelo retorno da consultoria a que me candidatei. Avanços importantes para uma tomada de decisão.

Terça-feira (24/11/2020)

Hoje eu recebi a notícia de que passei para a próxima etapa do processo seletivo. Terei mais um case pela frente, na semana que vem. Estou me animando com a ideia, mas ainda não sei se é pelo desafio do processo em si ou pela perspectiva de trabalhar lá.

Ao saber que passei de fase, um amigo me fez uma pergunta importante sobre trabalhar com consultoria: “O que te deixaria convicto de que esse é o caminho que quer seguir? Ou melhor: você precisa estar convicto nesse momento?”

Uma excelente pergunta. E a minha resposta foi a seguinte: “Eu não preciso, mas gostaria. Estar convicto para mim, nesse momento, é basicamente aceitar e abraçar minha própria decisão. Ou seja, me conscientizar dos porquês dela, e dos riscos também. Eu me sentiria mais seguro para dar o próximo passo assim. E, sobre o que me deixaria convicto, acho que seria finalizar o processo racional de olhar para as variáveis, motivações e possibilidades. E, feito isso, concluir que esse é o caminho que quero. Para isso, estou lendo o livro O Design da Sua Vida e fazendo os exercícios de reflexão dele, além de escrever os pensamentos que tenho tido. Em suma: concluir isso racionalmente, além do meu feeling, suportaria a decisão e me daria segurança”. Uma boa resposta também. Bem consciente, por sinal. Foi bom ter respondido a essa pergunta, porque me trouxe uma urgência de caminhar com mais agilidade rumo a uma decisão. […]

Domingo (06/12/2020)

Já faz tempo que eu não escrevo aqui, principalmente porque estive focado no processo seletivo da consultoria. Estudei o máximo que aguentei por uma semana e, nesse período, não tive energia para fazer qualquer coisa além das necessidades fisiológicas. […]

Domingo (20/12/2020)

[…] Outra coisa bem importante desta semana foi a resposta positiva do processo seletivo. Passei para a próxima (e última) etapa. Pelo que sei, vai ser uma entrevista, mais para validar que faz sentido do que para testar habilidades (como nas resoluções de case). A resposta me deixou contente, mas também alerta. Afinal de contas, se eu passar no processo, precisarei saber se é isso mesmo que quero ou não. Racionalizar essa decisão tem sido um processo necessário, mas agora preciso garantir que o timing dele esteja em paralelo com o do processo seletivo.

No decorrer da semana, conversei com alguns amigos sobre a minha busca por convicção de que é esse o caminho que quero seguir. Recebi perguntas importantes e concluí algumas coisas:

  1. É um caminho que pode fazer muito sentido. De um ponto de vista racional, ele se conecta com a minha trajetória e minhas curiosidades. Além disso, é algo que eu sempre quis testar. Então eu tenho motivos suficientes para falar “VAMO AÍ”;
  2. Eu não me conecto emocionalmente com a oportunidade, e é isso que tem me deixado com o pé atrás. Já sei que a conexão emocional é propulsora do meu nível de engajamento com o trabalho — seja ele qual for. Mas, por outro lado, também sei que essa conexão emocional teve prazo de validade em todo lugar por onde passei. Em minhas experiências anteriores, cedo ou tarde esse “combustível” acabava, porque vinham outros problemas que falavam mais alto, e assim eu perdia essa conexão. Eu preciso entender se há padrão nessas situações passadas. Que problemas são esses que me desconectaram emocionalmente?
  3. Minha intuição diz: “Vai lá, você já pensou nisso várias vezes, cogitava isso e nunca correu atrás. Você tem uma baita oportunidade na sua mão; está num momento meio perdido e a consultoria vai te abrir um leque muito legal, com mudanças constantes e projetos distintos”;
  4. Essa minha falta de convicção é mais um receio de ser um “tiro errado” do que qualquer outra coisa. Eu tenho motivos suficientes para entrar, eu sei os porquês para topar. O que falta é virar a chavinha na minha cabeça de “eu toparia por isso” para “estou topando por isso, simbora”.

Honestamente? O que tenho pensado é que agora basta abraçar a oportunidade e “cair de cabeça”, mas não vou fazer isso sem terminar o meu processo de racionalização. Não desta vez.

Para resolver o ponto (2), estou conversando com pessoas da minha rede que trabalham ou já trabalharam nessa consultoria. Quero entender a dinâmica de trabalho por lá e descobrir se os problemas que me desconectaram dos empregos anteriores também acontecem no emprego que estou almejando. Se não acontecerem, talvez eu não tenha mais motivos para não fazer desse o meu próximo passo. Risco vai ter, claro. Mas está parecendo ser algo certeiro. Eu comecei essa reflexão toda há muito tempo, já eliminei muitas alternativas, não é como se eu estivesse abraçando a primeira solução que pensei. Sinto que estou próximo de chegar a algum lugar.

Por ora, não há como negar que estou animado por estar na etapa final do processo. Vamo que vamo.

Segunda-feira (22/02/2021)

Foram dois meses sem escrever nesse “diário”. Hoje revisitei tudo que já escrevi nele. Gostei de ler algumas coisas que minha intuição já estava tentando dizer, mas naquele momento meu processo racional de conectar os pontos ainda não tinha terminado.

Impressionante como o tempo leva e traz alguns pensamentos. Acho que esse intervalo entre perder a conclusão a que já cheguei e encontrá-la novamente tem sido o principal fator de minhas decisões mais confiantes.

A empresa de consultoria para a qual eu estava me candidatando era a EloGroup. Há três semanas eu recebi a resposta: não fui aprovado. Pode parecer meio absurdo, mas foi muito bom ter recebido esse não. Eu fiquei chateado, claro. Afinal, eu queria ser aprovado, queria trabalhar lá. Mas, embora eu tivesse consciência dessa vontade, ainda não tinha conseguido entendê-la totalmente.

Eu já via consultoria como um caminho viável, mas não estava tão certo disso. E, ao receber a negativa da Elo, fui obrigado a criar um novo plano, já que eu não estava inscrito em mais nenhum processo seletivo. Eu havia chegado no momento mais importante desse processo: (eu tentei fugir do clichê, mas não consegui evitar) o ponto de virada.

Depois de pensar e testar tantas hipóteses, a única recomendação (e vontade) que eu tinha para mim mesmo era prestar processos de empresas de consultoria. Ao ouvir o primeiro não, eu tive certeza de que tinha começado um caminho que realmente queria. Era hora de assumir essa decisão e me preparar melhor para esses processos.

Receber a negativa deu sentido para todo esse processo que estou passando. Há um ano que reflito profundamente sobre minha carreira, e os eventos mais recentes foram grandes avanços, mas ainda não eram um fim. Desde que pedi demissão (há mais de três meses), voltei a morar com meus pais. Aqui, meu único compromisso tem sido encontrar um novo caminho, e isso dependia de uma decisão. Eu saí de São Paulo para isso, e finalmente essa decisão foi tomada: trabalhar em consultoria.

A partir disso, o compromisso é outro. Estou em uma nova etapa de um processo maior. O momento agora é de me preparar. Para isso, um bom jeito de começar era olhar para o que faltou na primeira tentativa. Eu recebi o feedback do processo da EloGroup, com tudo que consideraram para que eu não fosse aprovado (achei bastante coerente, por sinal). O retorno que tive foi decorrente de dois fatores principais:

  1. Eu ainda não tinha assumido a decisão de consultoria. Muitas das minhas respostas nas entrevistas foram abertas demais. Pouco conclusivas, pouco assertivas e pouco decididas no quesito “o que eu quero da minha vida”. Eu estava tentando o processo seletivo da Elo porque gosto da empresa e da cultura que parecem ter. Mas o que eu realmente estava fazendo para me preparar? Pouco. Eu precisava fazer muito mais;
  2. Eu não estava preparado. E isso é uma consequência direta do primeiro fator. Eu mandei muito bem em chegar à fase final do processo, mas não estava pronto.

Agora que estou com a decisão tomada, tenho certeza de que muitas das respostas que dei nas entrevistas teriam sido bem diferentes hoje. E talvez eu tivesse passado. Mas é por isso que esse não foi tão importante: para tomar essa decisão.

Pois bem. Agora que já sei o que quero e os motivos para isso, vou me inscrever em outros processos de consultoria. Enfim tenho um objetivo. Um porquê, com fundamento e causa.

Hoje (23/02/2021)

Aprendi que o tempo é bem importante para algumas decisões, e que acelerar processos de reflexão pode ser uma baita cagada. Eu ainda não sei onde vou trabalhar, se vou passar em algum dos processos na primeira tentativa, nem se vou gostar do meu trabalho quando chegar lá. Pode ser que esse meu discurso ainda mude muito, mas, por ora, penso o seguinte: se faz sentido para o momento, melhor abraçar a ideia e ir para cima. E, se nada faz sentido, melhor tirar um tempo para conectar os pontos. Tem funcionado por aqui.

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(Metido a) escritor. Ex-tímido. Engenheiro não praticante. Pago de engraçadão em interações sociais. Não gosto de alho.

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